Judão:

Louis Leterrier tem uma das missões mais difíceis para a temporada cinematográfica de 2008. Ele dirigiu O Incrível Hulk, segundo longa-metragem estrelado pelo Gigante Esmeralda, e enfrenta o fantasma do fiasco de bilheteria e crítica provocado pelo primeiro filme, dirigido por ninguém menos que Ang Lee. Fã assumido de quadrinhos, esse francês de 34 anos de idade, assumiu o comando, convenceu Edward Norton a ser o astro principal e, ao que tudo indica, cumpriu sua tarefa com louvor.
Experiente diretor de filmes de ação, como os dois da série Carga Explosiva, ele conversou comigo, na última segunda-feira, um dia depois do Tapete Verde estendido para o personagem dentro do parque da Universal, em Los Angeles. Ele revelou detalhes do filme, falou das continuações, do filme dos Vingadores e, claro, da tão falada “briga” que teve com Edward Norton sobre os rumos que o filme tomava.

Ficou feliz, ontem, no Tapete Verde?
Estava muito feliz! E, nossa, tão quente! Fiquei duas horas lá fora cozinhando e,quando entrei no cinema, foi delicioso, pois estava bem fresco com o ar-condicionado.

Os fãs e a expectativa deixaram você nervoso?
Ao contrário, ontem foi uma das primeiras vezes na minha vida em que eu fiquei muito relaxado e feliz num lançamento de filme. E devo isso à Universal, pois, nesse calor, eles não me fizeram usar um terno na première, como de costume. Eu pude ser eu mesmo, o que foi ótimo. Isso me deu tranqüilidade, porque, como “corro por fora” dirigindo esse filme, pude interagir bem com as pessoas, e isso gerou uma resposta positiva de quem esteve no evento. Fiquei um pouco nervoso quando o filme começou, pois, depois das palmas, as pessoas ficaram em silêncio. E pensei: ”xi, odiaram”, mas foi o contrário.Aliás, nunca participei de uma première com tanta salva de palmas. Foi impressionante. Kevin Feige, Presidente da Marvel, contou e foram oito vezes. Em alguns momentos eles batiam palmas mesmo no meio das cenas de ação. Foi uma resposta muito positiva.

O Incrível Hulk é um filme de ação, um romance ou uma mistura dos dois gêneros?
Não acho possível existir uma boa história e ação, sem o contraponto da história de amor como fundo, e vice-versa. Não para esse tipo de filme. Se for somente ação, sem muito em que pensar e se envolver, o resultado é algo pouco cerebral. Fica chato. Você pensa: “por que estamos lutando mesmo?”. Quando aceitei fazer o filme, pedi duas coisas no roteiro para a Marvel: quero muita coisa efetiva em jogo e quero um tempo limite para que tudo aconteça. Meu objetivo era deixar as pessoas roendo as unhas e com vontade de entrar na tela para ajudar os personagens. É assim que acontece nos filmes dos quais eu gosto, como A Supremacia Bourne, todos os Bonds……Carga Explosiva. (risos) Grande filme, tem um diretor fabuloso! (mais risos).

Por que você diz que estava “correndo por fora”? Por causa da expectativa ou das possíveis críticas?
Bom, até agora as críticas têm sido boas, mas todo mundo acha que nosso filme vai ser um fracasso, assim como o filme do Ang (Lee). E eu não sou o típico diretor “classe A”. O pessoal não leva muito em conta por causa do que eu já fiz.

Mas seus filmes são bacanas!
(risos) Obrigado, muita bondade! (risos) Mas eu sei o que sou. Não sou um Ridley Scott e, definitivamente, não sou um Ang Lee. Muita gente pensou: “por que escolheram esse cara?!” Porque esse cara adora fazer filmes para o espectador, então, o público tende a gostar. O que é bom, e gostei de ser valorizado dessa maneira. Mas estamos “correndo por fora” por sermos o único filme deste ano que precisa provar que merece respeito, muito por causa da comparação direta com o filme do Ang Lee, que eu acho muito bom, embora muita gente discorde. Vão comparar O Incrível Hulk com o fabuloso resultado de Homem de Ferro, com o próximo Batman – que estou doido para ver…

Com Kung Fu Panda…
(gargalhadas) … com aquele Panda estúpido! (risos) Ainda não assisti ao filme, só minha filha viu. Parece bom.

O que você aprendeu com o primeiro filme?
Embora muita coisa ali fosse óbvia, para não repetir, pois o público não gostou, foquei o trabalho no lado positivo. Vários elementos da personalidade de Bruce Banner saíram de lá, mas não ficamos preocupados em calcar o filme todo no anterior. Nunca foi intenção corrigir ou alterar o que havia sido feito. Há uma questão de respeito aqui, embora eu sempre ache que poderia ter sido muito melhor, especialmente por ser um filme do Ang Lee. O novo filme não é uma seqüência direta nem começa do zero. Começamos num meio termo nesse sentido, mas a maior lição que tirei do primeiro Hulk e de outros filmes de super-herói é que, em muitos casos, as histórias são contadas em “soquinhos”. Vem uma cena de ação, aí pára tudo para explicar. Mais uma, e mais explicação. Falta fluidez nesse aspecto. E o público responde de modo negativo. É como um trem com muitas paradas, você fica irritado depois da terceira delas. Tentei criar um filme que acontecesse num tiro só, sem parar muito para explicações.

No fim das contas, você acha que conseguiu?
Bom, acho que sim, mas o crédito não é meu. É dos editores! Para começo de conversa, a versão final desse filme seria impossível de ser “lida” num roteiro. É um roteiro impossível. Ele foi montado depois de todas as idéias filmadas, aliás, muito bem montado.

Qual foi o envolvimento de Edward Norton?
Ele chegou um pouco tarde no processo todo. Sempre soube que o melhor ator para viver Bruce Banner era ele, mas nunca imaginei que pudesse contratar alguém como ele, então, passei um tempo procurando por outras alternativas. Tentei achar alguém parecido com o Bill Bixby ou que se encaixasse no personagem. Fui de desconhecidos até outras estrelas, mas não rolou.

E claro que você não vai falar quem foram esses caras.

Seria indelicado.
Muito, mas só posso mencionar um: Joaquin Phoenix. Dele eu falo, pois foi o único que eu sondei e ele disse não. (risos). Então, houve uma relação aqui. Os demais foram só idéias. O legal da América é que a gente pode conhecer todo mundo aqui.

E como Edward aconteceu nessa história toda?
Ah, resolvi arriscar e consegui uma reunião com ele. Fomos jantar e lá estava eu todo alegre (gesticulando) e dizendo “Ei, eu tenho essa idéia, vai ser animal, superbacana, blablablá”. E ele ficava ali olhando, segurando o queixo e dizendo ”hum…hum… hum…”. Foi o pior jantar da minha vida! (risos). Aí voltei para Paris, achando que tinha estragado tudo e bastante frustrado. Quando pousei, liguei o telefone e havia 25 mensagens de texto desesperadas dizendo que Edward tinha me adorado, que concordou em fazer o papel e todo mundo estava soltando fogos! Ele topou, mas tinha algumas condições e pedidos, especialmente sobre o roteiro, mas todo mundo concordou.

E como funcionou essa interação? E ainda gerou toda aquela história da briga entre vocês dois.
A melhor coisa disso tudo foi a oportunidade que eu tive de poder debater as idéias, assim como ele também fez. Acabamos ficando muito ligados, quase um projeto de irmãos. E, como sempre, irmãos tendem a discutir às vezes, mas nada exagerado. Ficamos muito próximos nesse aspecto.

E a briga… sobre o primeiro corte?
Foi realmente sobre o primeiro corte, mas foi mais simples do que a mídia transformou. Foram seis meses de filmagens, tinha material que não acabava mais. Coisa boa e muita porcaria. Mas aí você monta tudo para ver como ficou, pois o estúdio também quer ver tudo que foi feito. Inserimos trilha aqui, um efeito ou outro ali, e temos o material completo. Fizemos uma exibição e ficou horrível! H-O-R-R-Í-V-E-L! Ficou exatamente o oposto do que eu queria, cheio de solavancos e interrupções. Aí fomos conversar a respeito e tomar decisões “matar nossos bebês”. Estávamos falando e ele levantou e começou a argumentar, pois estava realmente envolvido. [levantou-se e reproduziu o tom e os movimentos de Norton]. Algum dos assistentes deve ter ouvido esse momento, correu para a internet e espalhou o rumor. O mais legal é que ninguém dá a mínima para mim, mas o fato de ele ter “ficado nervoso” virou notícia. Logo que as matérias começaram a sair, ele trouxe uma e, rindo, disse na minha cara: Olha, você virou a nova Britney! (gargalhadas). O pessoal sempre fica de olho procurando essas fofocas.

Falando em rumores e fofocas. Pode dizer onde está o Capitão América? Se é que ele está no filme!
Tenho um segredo. Amanhã (terça-feira passada) eu termino o que deveria ser a primeira cena do filme. Bruce Banner está andando em direção ao Ártico. É uma espécie de prólogo do nosso filme. Ele perde as estribeiras, chega ao fim da linha e tenta cometer suicídio. A cena ficou densa demais para Marvel, Universal, para mim e para os demais envolvidos. Então, sugeriram mudanças ou uma refilmagem. Eu disse não, vamos manter assim, mas podemos colocar o material na Internet. Embora seja público, pode ter o acesso controlado e evita que crianças vejam aquilo de modo tão fácil. Então, nessa cena, vocês, prestando muita atenção, podem ver o Capitão América.

Homem de Ferro teve o escudo e, agora, você vem com essa… tem mais coisa?
Sim, vários outros detalhes sobre esse universo estão lá, é só olhar com cuidado. Pague seu ingresso desta vez! (risos).

O filme do Hulk funciona apenas como um filme individual ou é mesmo uma espécie de prelúdio para Os Vingadores? Houve alguma orientação da Marvel nesse sentido?
Estou muito orgulhoso por ter dirigido um pedacinho do filme Os Vingadores! O filme do Hulk termina quando Edward abre os olhos e sorri. Em seguida, começa o filme de Os Vingadores quando Tony Stark entra no bar. Adorei isso! (risos).

Essa cena vai aparecer novamente em Os Vingadores?
Não sei, talvez alguém diga “lembrem-se de dez anos atrás” e mostre a cena do bar. Mas não sei quando o filme vai sair, mas estão escrevendo, então, pode ser.

Você vai participar?

Já tem contrato para mais filmes do Hulk?
Já defini um preço, mas não há nada assinado. Na Marvel as coisas são diferentes. Nem eu nem Edward assinou nada para um próximo filme, assim como Robert [Downey Jr.] e Jon Favreau também não assinaram para Homem de Ferro 2.

E o envolvimento de Edward Norton no roteiro? Como ficou a coisa do crédito?
No total, escrevemos três tratamentos e Edward escreveu nove! Foi muita coisa. Edward trabalhou muito a questão dos diálogos e níveis de profundidade nos personagens. O personagem de Ty Burell [o namorado de Betty Ross], por exemplo, era um cretino de marca maior. Aí Edward mudou tudo nele e o transformou em alguém bem mais elaborado, cheio de sutilezas. Mas ele não ganhou crédito no filme em si, não por mim ou pela Marvel, mas por conta da Writers Guild of America (WGA), que analisa todo o material e compara os roteiros e o que acabou sendo filmado. Eles tendem a dar o crédito para o primeiro roteirista, [Zak Pen, no caso] se o argumento se manteve e foi o que aconteceu. Mas ele escreveu bastante, sim.

E o que acontece com o Mr. Blue (Tim Blake Nelson)?
(risos) Tem que esperar para ver! Seguindo as histórias em quadrinhos, ele se transforma no Líder! Entre suas habilidades está a capacidade de ordenar pessoas e outros vilões à sua volta para atacar o Hulk! Existem muitos vilões prontos para as seqüências nesse primeiro filme.

De onde vem toda essa paixão pelo Hulk?
É um personagem conhecido em todo o mundo. É difícil alguém não saber o nome daquele sujeito que fica verde e gigante quando está com raiva. (risos). O programa de TV era muito famoso na França e eu adorava assistir a ele. Foi por isso que entrei na jogada, para recriar algo que me emocionava na infância e transportar para a telona o que era a série.

Então, o filme é algo saído direto da série?
É o começo de algo mais, mas começa onde a série parou, se mistura com diversas outras versões do Hulk e chega nesse ponto que vemos no cinema. Sempre foi meu objetivo. Daqui uns dez anos, as pessoas vão chamar o outro filme de Hulk do Ang Lee, por ser autoral, mas esse filme, ele deve gerar várias seqüências, por ser o Hulk definitivo para os fãs e para o que a Marvel planeja. É por isso que a internet tem ajudado muito, pois esse é o Hulk que os fãs querem ver. Tudo isso está construindo condições para que o filme de Os Vingadores surja, mas, além disso, são vários heróis interagindo, porém, com interesses diferentes e missões diferentes. É uma nova mídia para eles e, agora, começaram a “conversar”.

Você não vai dirigir Carga Explosiva 3, não é? Que pena! Sabe algo da história?
(risos) Aqueles malditos! (risos) Não me chamaram, mas o diretor é meu amigo e pelo que já vi está ficando muito bom. A história envolve uma garota, dã!, e um carro. Eles são presos por braceletes que podem ficar a certa distância do carro. Se eles se afastarem, booom! Então, o carro surge como personagem e eles tem que fazer TUDO, mesmo, com o carro por perto. Já imaginou ir ao banheiro? (gargalhadas).

Para finalizar, eu preciso perguntar: por que vocês não contrataram atores brasileiros para as cenas dentro da fábrica? O sotaque deles ficou horrível e eu não consegui entender uma só palavra!
Ai, meu Deus! Desculpe! Desculpe! Desculpe! Desculpe! Desculpe! Desculpe! Eu estava com medo de encontrar algum brasileiro doido o suficiente para perguntar isso, pois fiquei indignado com o que aconteceu. Os atores disseram que falavam português e, quando começamos a filmar, soou muito estranho e descobrirmos que eles falavam só espanhol.

Mas não filmaram na Rocinha?
Sim, mas a cena da fábrica foi feita num estúdio no Canadá. Aí tentamos encontrar um professor de português lá, mas ninguém achou. Meu Deus! Não há brasileiros morando no Canadá, vocês deveriam mandar mais imigrantes para aquele lado! (risos). Ficou tão ruim mesmo?

Péssimo…
Eu juro que, se for possível fazer algo, faremos. Não imaginei que o estrago fosse tão grande. Então, peço desculpas ao povo brasileiro. Mas espero que eles gostem do filme!
[Nota: depois disso, a Universal entrou em contato comigo para avisar que, nas cópias brasileiras, os personagens foram dublados por atores genuinamente brasileiros e o problema foi sanado]